As Sendas e o Sopro – Sefer Yetzirah

No princípio que não é princípio,
quando o silêncio ainda não sabia o nome do som,
o Uno gravou trinta e duas sendas de sabedoria.
Dez sefirot sem forma,
vinte e duas letras vivas.
Com elas, desenhou o mapa da criação invisível.

Não com mãos,
mas com o sopro do seu próprio ser,
gravou o limite e o ilimitado,
a direção e o centro.
E do nada surgiu o possível,
e o possível aprendeu a nascer.

As dez sefirot são respirações do Infinito.
Não se as mede com números,
porque são a origem do número.
Não se as toca com mãos,
porque são o espaço onde o toque acontece.
Cada uma é como uma luz sustentando outra luz,
reflexos do mesmo brilho,
vozes diferentes do mesmo silêncio.

A primeira é a raiz invisível,
o ponto onde o ser ainda não ousou existir.
A segunda é sabedoria —
a expansão do brilho em direção ao mistério.
A terceira é entendimento,
o cálice que contém o fluxo da luz.

Dessas três nasce o equilíbrio das outras sete,
que formam o corpo vivo da criação:
misericórdia e rigor,
beleza e vitória,
esplendor, fundamento e reino.
Tudo o que existe vibra nelas —
as estrelas e os pensamentos,
as águas e as vozes.

Mas não te enganes, peregrino da mente:
essas dez não são tronos separados,
são modos de o Eterno respirar dentro de si mesmo.


Vinte e duas letras se levantaram como pilares de ar.
Algumas são mães — origem dos elementos;
outras, duplas — portais reversíveis;
outras, simples — caminhos do tempo e do corpo.

Álef é ar: o sopro que liga e separa.
Mem é água: o ventre do mundo.
Shin é fogo: a chama que desperta e consome.

Entre elas se equilibram todas as coisas:
o sopro tempera o fogo,
o fogo aquece a água,
a água dá peso ao sopro.
Três forças em eterno diálogo —
raiz do movimento e da transformação.

Das sete duplas nascem os contrários:
vida e morte,
paz e guerra,
sabedoria e confusão,
riqueza e pobreza,
graça e feiura,
domínio e servidão.
Cada uma é uma porta que se abre e fecha
segundo o sopro do Alto.

As doze simples traçam as estradas do ano,
os doze rostos do zodíaco,
os órgãos do corpo e suas estações.
O tempo caminha sobre essas letras,
como o vento sobre as águas,
sem deixar pegadas.


E o Sopro — Ruach Elohim — moveu-se sobre o abismo.
Não era vento,
era o desejo do Infinito de ser conhecido.
Com o Sopro, as letras se tornaram sons,
os sons se tornaram nomes,
e os nomes se tornaram mundos.

Nada existe fora dessa respiração.
O Sopro penetra as pedras e os pensamentos,
sustenta as árvores e os céus.
Tudo o que fala, fala por Ele.
Tudo o que respira, respira Nele.

As sefirot são seus degraus,
as letras são suas notas,
os mundos, a sua canção.
E o homem — o pequeno reflexo —
é o eco dessa melodia.

Dentro do homem há um firmamento,
dez sefirot adormecidas,
vinte e duas letras em busca de voz.
Quando ele respira com atenção,
o Sopro reconhece o Sopro;
quando fala em verdade,
as letras retornam ao seu lugar.

Assim, o homem se torna microcosmo do dizer,
uma centelha que recorda o fogo,
um sopro que repete o Sopro.


O fim está no começo,
e o começo se oculta no fim.
O círculo não aprisiona,
apenas devolve o olhar à origem.

Entre uma letra e outra,
o silêncio respira.
E no silêncio, o Infinito canta.

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