Inspirado no Sha’ar HaGilgulim de Isaac Luria
No princípio, antes do sopro ter forma,
o Eterno moldou uma escada invisível,
pela qual a alma desceria à terra
e, um dia, voltaria a subir.
Cada degrau era uma veste,
uma camada de luz vestida em sombra,
um reflexo do mesmo fogo
revelado em diferentes densidades.
Assim nasceram os cinco níveis da alma —
cinco respirações de um mesmo Ser.
O primeiro degrau chama-se Néfesh.
É o sopro vital que anima o corpo,
a centelha que se aloja no sangue
e move as mãos, os olhos e o instinto.
O Néfesh é o guardião da matéria.
Ele não sabe raciocinar; apenas vive,
reage, busca alimento e repouso,
repete os gestos do universo material.
Sua morada é o mundo de Assiá,
o mundo da ação,
onde tudo é pesado,
onde cada desejo tem gravidade.
Néfesh é como o aluno que ainda não sabe ler
mas sente a força do alfabeto.
É o início da vida, a semente da consciência.
Sem ele, nada floresce;
mas nele, se o homem permanecer,
nada desperta.
O Ari ensina que cada ser humano nasce
com apenas esta parte plenamente acesa.
As demais dormem, esperando o chamado.
E o chamado só vem pela retificação —
pelas escolhas, pelos atos de luz
que abrem espaço para o segundo sopro.
Quando o Néfesh é purificado,
quando o instinto aprende a servir e não a dominar,
a alma recebe o Rúach,
o segundo degrau da escada.
Rúach é o vento interior,
a força moral,
o espírito que discerne o bem e o mal.
É o início da verdadeira humanidade.
Aqui a voz do coração se levanta
e o homem passa a responder por si.
Rúach habita o mundo de Yetzirá,
o mundo da formação e das emoções,
onde os anjos são moldados,
onde o sentimento se converte em direção.
Nesse plano, a alma já não age por reflexo:
ela escolhe.
E cada escolha desenha um caminho no invisível.
Mas Rúach é vento, e o vento pode ser furacão.
Quando o discernimento se curva ao orgulho,
a alma se fragmenta.
Então ela precisa voltar —
em outro corpo, em outro tempo —
até que o vento volte a soprar na direção do Alto.
Quando o Rúach cumpre seu Tikun,
quando o coração se torna transparente,
a terceira luz desce: a Neshamá.
Ela é o sopro da compreensão divina,
a centelha que contempla o mistério
sem precisar possuí-lo.
Neshamá não mora entre os nervos ou o sangue:
sua morada é o mundo de Beriá,
o mundo da criação.
Ela vê o que os olhos não veem,
recorda o que o tempo esqueceu.
Quando a Neshamá desperta,
o homem percebe que não é apenas aquele que sente,
mas aquele que observa o sentir.
O amor deixa de ser carência e torna-se doação.
A oração deixa de ser pedido e torna-se comunhão.
Mas a Neshamá só pode permanecer
se o Rúach e o Néfesh estiverem em harmonia.
Se houver conflito entre o instinto e o espírito,
a alma superior se afasta,
e o homem sente-se vazio —
como um templo sem chama.
Por isso a ascensão é gradual,
e o tempo é o instrumento da misericórdia.
Acima da Neshamá há duas luzes que não se encarnam totalmente:
Chaiá e Yechidá.
Elas pertencem a dimensões onde a queda de Adão não chegou,
e, por isso, não conhecem o esquecimento.
Chaiá é a vida pura —
a corrente invisível que mantém todas as almas unidas.
É o mundo de Atzilut,
onde tudo é transparência,
onde não há separação entre vontade e obediência.
Ela toca o homem em momentos de êxtase,
quando a oração se faz pura presença,
quando o silêncio se enche de sentido.
Mas ela não permanece:
é um relâmpago do que somos na eternidade.
Yechidá é ainda mais sutil —
a unidade absoluta,
a centelha do Uno em nós.
É a parte da alma que jamais desceu.
Ela permanece na luz, imóvel,
e é dela que vem o anseio de voltar.
Enquanto o Néfesh experimenta,
o Rúach escolhe,
a Neshamá compreende,
a Chaiá observa,
e a Yechidá apenas é.
A ascensão da alma é, portanto,
um retorno da multiplicidade à simplicidade,
do movimento à quietude,
do “eu sou” ao “Ele é”.
Mas o Ari diz: a escada é viva.
Não basta conhecer os degraus —
é preciso respirá-los.
Enquanto o homem não domina o Néfesh,
reencarna no mesmo nível,
repetindo os desejos e os medos,
até aprender a transformá-los em serviço.
Quando o Rúach desperta e falha,
ele volta também,
trazendo consigo o peso do que ficou inacabado.
E assim a alma sobe e desce,
até que todas as suas partes se reconheçam
como reflexos de um único rosto.
Cada existência é um degrau dessa escada.
A infância de uma vida é o eco da juventude de outra.
A velhice de agora é a colheita de antes.
E o amor — quando puro —
é sempre reencontro entre almas
que já se buscaram há muito tempo.
Quando o Néfesh, o Rúach e a Neshamá
se alinham em perfeita correspondência,
a Chaiá desce como luz sobre o rosto,
e a Yechidá desperta no coração.
Nesse instante, a alma deixa de subir,
porque compreende que nunca esteve embaixo.
A escada, então, desaparece,
como um sonho cumprido.
Não há mais degraus,
não há mais mundos.
Há apenas o Ser respirando dentro de si mesmo.
O corpo ainda caminha,
fala, come, sorri,
mas tudo nele é oferenda.
Cada gesto é oração,
cada silêncio é louvor.
O homem tornou-se o que sempre foi:
um fragmento consciente da Unidade.
E assim se cumpre o desígnio do Ari:
a alma, que desceu para aprender o amor,
volta trazendo o amor aprendido.
O universo, que se fragmentou em rostos,
volta a ser um único espelho.
Pois no fim de todas as reencarnações
não há partida nem chegada,
mas lembrança —
a lembrança de que o sopro que anima o corpo
é o mesmo que move as estrelas.
E a escada que subimos passo a passo
sempre esteve dentro de nós.